quinta-feira, 11 de junho de 2015

Nota de um driblador (uma observação através de décadas)


Desde moleque, nas quadras do antigo futebol de salão, ou nos gramados esburacados das Minas Gerais, sempre buscava o drible, de preferência o mais vistoso e humilhante, antes de tentar o gol. Quantos mais viessem e caíssem, melhor ainda. O auge era quando o goleiro também saía na minha direção, pois fintá-lo e entrar com bola e tudo como meus ídolos faziam na época (Zico, Renato Gaúcho), era sentir o prazer indescritível de ser um craque, ainda que sem torcedores para aplaudir. E é exatamente aqui que quero pautar esta nota de observação. Quem testemunhava estas jogadas eram os colegas de pelada. E eles, quase que invariavelmente, recriminavam!  Escrevo estas linhas para tentar compreender este fato, que me veio à mente novamente, décadas depois, numa pelada recente. Eu agora, já com o peso de meus 38 anos, sem o mesmo arranque, impulso tão fundamental para a concretização de tais fintas, ainda me aventuro a tentá-las, pois sempre foi o maior prazer no futebol. Não a vitória, insípida, nem o gol, sozinho. Elas, as fintas, que quando complementadas por bola na rede, se tornavam pinturas em minha mente, jamais esquecidas. 
Pois eis que, em determinado momento do rachão semanas atrás, tento eu o improvável, dois chapéus seguidos nos zagueiros, a lá Romário na Copa América de 1989 diante da Argentina (até a narração de Galvão Bueno me veio à cabeça no momento: "Que lindo lance! Mais um!") Consigo o primeiro, brilhante, "ainda sou um gênio do futebol", penso eu em meus deliciosos delírios. O segundo zagueiro chega, e como quando menino, sem pestanejar, parto para o segundo, a glória, o espetáculo, a torcida vibraria mais que um gol qualquer, o que já vale tentar, sempre! Quase consigo completar e partir pro gol! Um terceiro zagueiro chega antes, e meu fôlego acaba, já não sou o mesmo... mas a essência permanece. 
Minha empolgação é tamanha que esqueço da pauta aqui! Como na época, ao perder a bola tentando esta jogada acrobática, estilo Ronaldinho Gaúcho, levo um esporro quase que de todo time! "Cara, você deu DOIS chapéus!" com ares de indignação e raiva.
Acostumamos desde pequeno a esta repressão. O que é um erro gravíssimo! Se já é difícil para um adulto passar por cima dela, com todos lhe xingando, imagine um garoto?
Somado a isso temos outro fato diametralmente oposto! O aplauso, de quase todo time, quando damos um carrinho e jogamos a bola e o jogador pra lateral do campo! Jogada, na minha opinião, bisonha, ridícula, perigosa pra ambos, recurso de quem não possui recurso. Válido? Ok. Mas digno de aplausos eufóricos em detrimento de jogadas plásticas que recebem repressão ?? Jamais!!!
Talvez isso explique o fato de termos atualmente, e nas últimas décadas, tanto meio campista que só sabe destruir jogadas, e não criá-las! Pois o incentivo é este desde pequeno! Há exceções, ainda bem, que me fazem continuar a assistir futebol! Mas como são raras!!! 
Mas o quê explica este tipo de comportamento? Vou tentar um chapéu filosófico aqui. Penso eu que a inveja. O ser humano em geral têm problemas em admitir que o outro a seu lado sabe ou faz melhor algo que ele também tenta e gostaria de fazer. Essa "mágoa" gera o comportamento de rebanho, o recalque bem descrito por Nietzsche em sua análise da religião como o subterfúgio dos fracos. Aqui, e em todos os campos de futebol, ao menos no Brasil, seria a tentativa de "nivelar por baixo", enfatizando e enaltecendo a mediocridade da jogada bruta, em detrimento do requinte do artista da jogada genial. Com o intuito inconsciente de se sentirem bem em sua falta de "potência". 
Por fim, voltando ao gramado do meu rachão de quartas-feiras, após a repressão, respondo em campo aos medíocres, que sofro de megalomania (sentiram-na aqui, com pinceladas filosóficas vindas de um ortodontista?). Mas não seria desta mesma megalomania de que são feitos os grandes craques? Pelé não sofria disso ao chapelar zagueiros aos 17 anos em sua primeira Copa do Mundo?
Recentemente o absurdo do exemplo que torna concreto tudo isso. Ao executar a carretilha, Neymar, que iria sair na frente na jogada, sofre falta, não marcada, e quase apanha! Sofre repressão quase que do mundo inteiro; adversários, colegas, treinadores, colunistas... espetáculo triste de se ver. Muito diferente do espetáculo do "dibre" desconcertante. 
Há que se lutar contra esta repressão logo na infância. E, ao contrário, incentivar o lúdico, refinar os movimentos ao ponto de fazer deles, arte. Afinal, o esporte, em essência, é uma brincadeira, nascida para afastar a vontade de guerrear, e não o contrário. Menos carrinhos com aplausos! Mais carretilhas com vibrações! Já nas peladas!  E Urgente!! 

(Roberto Parisi)

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Água e terror.

Pensei em postar aqui que só começaria a economizar água depois de constatar a diminuição dos lucros do agronegócio, detentor da maior parte da “nossa” água. Mas não adianta. Isso só atenua a situação. O mundo sempre foi dos mais fortes (economicamente, hoje em dia). Os milionários não estão preocupados em ficar com sede, apenas se seus lucros diminuirão. Se faltar água pra beber, se mudam daqui e que se dane todo mundo. Os meros mortais precisam economizar e aguentar a mídia dizendo que esta é a solução, a única saída no momento e etc… É por estas e outras que reafirmo meu olhar filosófico a respeito do terrorismo (político, não o religioso ridículo). Não considero o terrorismo covardia maior do que o quê as grandes corporações capitalistas geram de desigualdade e miséria atualmente. O terrorismo é o contra-ataque dos mais fracos. É bárbaro e agudo, em resposta à devastação calculada e gradual do “mundo civilizado”. Ambos nefastos e não deveriam existir (antes que alguém queira me acusar de apologia da violência), porém estão aí, e para ficarem por muito tempo.
Pois voto sem opções confiáveis e protestos, dificilmente mudam alguma coisa. E enquanto isso a corrupção assola o país e joga nossa dignidade por água abaixo.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Padrões de emergência e política.

O padrão de auto-organização constatado em formações de cidades, formigueiros, sites de busca de internet, formação de órgãos e etc, também foi evidenciado nas recentes manifestações populares por todo o mundo. O que deixou incrédulo e propenso a teorias de conspiração quase todo analista político não acostumado a ler nada mais além de economia e política. Pois é justamente o que caracteriza o padrão de emergência que causou tamanho equívoco interpretativo - a falta de "comando", a descentralização, a organização bottom up, e não mais top down, ou seja, de baixo pra cima e não de cima pra baixo. As redes sociais possibilitaram isso. Obviamente, muito oportunista tenta se aproveitar nestas horas, reivindicando a autoria ou acusando o outro lado, o que não impediu a observação do padrão, caracterizado pela ausência de líderes - a complexidade emergindo da simplicidade.
Ao me aprofundar no assunto, é cada vez com menos espanto que identifico este padrão em vários "locais", como no movimento extremamente organizado dos pinguins em meio a tempestades, nas quais cada um fica de costas para a tormenta, "segurando" o frio para os que estão no meio, e revezando, num movimento perfeitamente coordenado, evitando assim que algum membro saia prejudicado com um tempo de exposição maior.
Desta vez, lendo Noam Chomsky, a respeito de suas observações sobre os sistemas políticos, foi inevitável associar o padrão de emergência ao anarco-sindicalismo, ao socialismo libertário e alguns de seus mecanismos, e à idéia fundamental do anarquismo - a ausência de controle hierárquico.
 O voto distrital é um exemplo prático deste processo de descentralização do poder. Com  representantes ainda, porém locais, que vivem os problemas de determinada região, pois moram nela.
Assunto complexo, que exatamente como o padrão, tento simplificar. Estes dois "líderes" que disputam nosso voto e geram tamanha discussão de ideologias, não me representam! Podem me chamar de sonhador, mas não sou o único.
Assim como um organismo denominado Dictyostelium Discoideum, e seu mecanismo de ação totalmente não hierárquico (não há células complexas dando ordens às mais simples), gerando sua complexidade macroscópica (seu comportamento quando aglomerado) através de interações microscópicas simples, um sistema "político" ideal teria suas decisões sendo tomadas localmente, sem ordens superiores de quem jamais pisou alí, gerando a complexidade do todo a partir do indivíduo, atingindo assim, a humanidade, sua liberdade suprema em todos os setores.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Sobre padrões e protestos, por Steven Johnson, ligeiramente adaptado por mim.

"Em parte alguma as possibilidades progressistas da emergência  são mais evidentes do que nos novos movimentos de protesto ao redor do mundo, modelados explicitamente segundo as estruturas celulares, distribuídas, os sistemas auto-organizáveis. Os protestos de Seattle em 1999 se caracterizaram por uma extraordinária forma de organização distribuída: grupos de afinidades menores, representando causas específicas - críticos anti-Nike, anarquistas, ambientalistas radicais, sindicalistas - operavam independentemente na maior parte do tempo e juntavam-se somente para assembléias ocasionais, em que cada grupo elegia um único membro para representar seus interesses. Sobre o assunto, escreveu Naomi Klein, em The Nation: "Em algumas demonstrações os ativistas levam faixas para simbolizar seu movimento. Quando chega a hora da reunião, põem as faixas no chão, conclamando: 'Todos os manifestantes sobre a faixa', e a estrutura se torna um conselho na rua". Para alguns progressistas mais velhos, criados na tradição mais hierárquica dos movimentos trabalhistas do passado, esses diversos "grupos de afinidade" parecem irremediavelmente dispersos e desfocalizados, sem linguagem comum ou unidade ideológica. É quase impossível pensar sobre qualquer outro movimento político que tenha gerado tanta atenção pública sem produzir um líder genuíno - um Jesse Jackson ou Cesar Chaves - , se não por outra coisa, para o benefício das câmeras de televisão. As imagens que associamos aos protestos antiglobalização nunca são de uma multidão em adoração, levantando os punhos em solidariedade a um orador apaixonado em um palco. Essa é a iconografia de um modelo de protesto arcaico. O que vemos cada vez mais com a nova onda são imagens de grupos distintos: bonecos satíricos, anarquistas vestidos de preto e artistas performáticos - mas nenhum líder. Para os progressistas da velha escola, os manifestantes de hoje parecem estar sem comando, fora de controle, um enxame de pequenas causas sem qualquer princípio organizador - e, em certo sentido, eles estão certos em sua avaliação. O que lhes falta reconhecer é que pode haver poder e inteligência em um enxame, e se você está tentando lutar contra uma rede distribuída como o capitalismo global, é melhor mesmo se tornar uma rede distribuída. 
   Sem dúvida, isto não é motivo para adotar a pura anarquia. As colônias de formigas não têm líderes no sentido real, mas baseiam-se em regras rígidas: como ler padrões na trilha de feromônio, quando mudar do carregamento de alimentos para a construção do ninho, como responder a outras formigas, e assim por diante. Uma colônia de formigas sem regras locais não tem chance de criar uma ordem de nível superior, nem uma inteligência coletiva. Os movimentos antiglobalização, anticorrupção, estão somente começando a imaginar as regras apropriadas de engajamento entre as diferentes células. Os conselhhos de representações de Seattle foram um começo promissor, mas aprender como se juntar (como as células de Dictyostelium Discoideum) leva tempo. Naomi Klein escreveu ainda: "O que surgiu nas ruas de Seattle e Washington foi um modelo de ativista que reflete os caminhos orgânicos e interligados da Internet." Mas, como vimos inúmeras vezes nas páginas precedentes (Livro: Emergência - A dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares), mesmo a Web - o maior e mais avançado sistema auto-organizável feito pelo homem - somente agora está se tornando capaz de representar verdadeira inteligência coletiva. De um modo geral, as habilidades de leitura de mente da Web são, no máximo, embrionárias,  porque ainda estamos mexendo nas regras do sistema, tentando descobrir como os grupos adaptativos e inteligentes podem prosperar on-line. E se a inteligência coletiva da Web está na infância, imagine quanto os novos movimentos de protesto ainda têm para crescer. Até agora seus instintos parecem sólidos. Por trás do quebra-quebra de janelas e dos concertos de Rage Against The Machine, os ativistas anti-OMC, anticorrupção, estão fazendo algo profundo, mesmo nesses primeiros dias do movimento. Estão pensando como um enxame."

sábado, 9 de novembro de 2013

O ego humano quer a fantasia, o engano. Não se fala, por exemplo, dos filhos perdedores (que são muitos). Só há vencedores? Pra cada vencedor quantos perdedores necessariamente existem? Eles estão em maior proporção, mas são omitidos, dificultando sua pesquisa. Gostaria de ver a maturidade brotar da cabecinha oca da maioria e ouvir a seguinte frase: "Meu filho é um bosta!"

sábado, 11 de maio de 2013

Como convence-se alguém de sua doença? Demonstre sinais e sintomas. Então, se não basta o quê está diante dos olhos, estamos diante de outro tipo de doença. Uma que envolva comprometimento de raciocínio. Esquizofrenia, por exemplo. A grande maioria sofre disso. É, tecnicamente, esquizofrênica.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Humano, demasiado humano...

O sentido que se comumente atribui à palavra "humano" está estatisticamente inverso. As atrocidades, assassinatos, falcatruas corruptas, mazelas diversas oriundas de intenso egoísmo, causam um impacto muito maior na vida destes seres à prova d`´agua do que toda ação benéfica. Apenas a existência da fome basta como argumento definitivo, visto que não há escassez real (ainda) no planeta.